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domingo, 14 de novembro de 2010

O Dia em que matei Paul McCartney

Por Lawrence David

Eu não podia ter não ido ao show do Paul. Eu trai, desgraçadamente a mim mesmo.
Sou fiel. Nunca traio meu seres amados e amigos. Mas canso de trair a mim mesmo.
E fiquei de desculpinhas. Não, o cara era o John, o Paul era um espetáculo secundário. E ignorei o fato de suas interpretações de Little Richards tresloucarem as guriazinhas há 50 anos atrás. Aí também estava a Beatlemania. Mas realmente as composições mais contundentes e significativas são do Lennon. O cara era muito mais ácido e cortante e foi o pós-beatle que fez mais pelo mundo. Casou com uma artista de vanguarda e ainda por cima, japonesa. O paul foi o traíra enciumado que planejou a ruptura e só avisou os outros na hora em que quis pra lançar seu primeiro disco solo.
Mas ele aguentou a barra sozinho quando o suco de limão pirou com as drogas: LSD, estimulantes, até o poço fundo da heroína. O cara era doidão demais! Era necessário alguém mais pé no chão, que buscava simplicidade, romantismo e perfeição formal simultâneos pra segurar aquele trem desgovernado que foram os Fab Four no final. Sem Paul os Beatles não teriam durado tanto. (Mas ele tem que ter algo de ruim pra que eu possa não me importar não tê-lo visto em minha cidade natal!)
Ele praticamente conspirou pra tirar o Stu do grupo. Ele fez intriga? Quem não faria. O neguinho tocava mal e já era um grande artista plástico e eles, em 1961, ainda não eram quase nada a não ser uma das centenas de bandas de garotos pobres que queriam enriquecer com música. Ele já mexia melhor com os graves que qualquer um ali, e cantava de verdade.
Ele não tem tantas canções boas como seu irmão-oponente não fase pós. É verdade, elas foram esparsas e sua banda, o Wings, não era das mais interessantes, e amiúde foi ridicularizada pelos críticos que fatalmente o comparavam com os outros. Será? Tem as belíssimas Junk, Ev'ry Night e Baby I'm Amazed, isso só no primeiro album … Another Day, Too Many People, Jet, Band On The Run, Coming Up, Ebony And Ivory, Silly Love Songs, Mull Of Kintire, Live And let Die, só pra citar algumas.
Também seria herege se o tirasse do meu coração pois isso tudo está envolvido de tal forma em meu ser desde menino, desde que o mundo é mundo e seus sentimentos se moldaram quase que em definitivo, que não dá. Quando a admiração chega a esse ponto temos que matar o ídolo. Deveria ter me endividado mais ainda, implorado aos conhecidos. Fiz apelos no Orkut pra que alguém me doasse o ingresso. Ironicamente, uma grande amiga, dois dias depois do 7 de Novembro, me comunicou que poderia ter me conseguido o ingresso, “da próxima vez ...”
É impossível! Perco uma parte de minha memória cada vez que me lembro. Não devia fazer isso comigo. O show tinha que ser de graça, ao ar livre, pruma multidão de 400 mil pessoas, num belo anfiteatro rodeado de árvores e com um lindo por-do-sol como só Porto Alegre tem. Espetáculos assim não podem ser propriedade de uns poucos. Ninguém tem esse direito, nem que seja um dos Beatles.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quem Vai?


Por Roseli Santos


Falta um mês para o tão falado, comentado, esperado, anunciado show do Paul McCartney e eu não agüento mais ouvir falar nisso. É sério. E olha que eu sou fã dos Beatles. Compro discos, DVDs e adoro tudo relacionado ao Garotos de Liverpool. Mesmo assim, percebo um certo exagero nessa euforia descontrolada, quase alucinada de alguns para ver o show do ex-Beatle. Além do marketing violento que impera por trás de tudo isso, me parece que há pessoas que irão ver Paul McCartney apenas porque é um momento fashion e uma oportunidade de poder dizer a todos que estiveram lá, mesmo que nem saibam sequer a letra de qualquer canção dele ou dos Beatles.

Não me refiro aos fãs de carteirinha, àqueles que pagarão um salário mínimo sem piscar para ver o ídolo de perto (neste caso nem tão perto assim), custe o que custar. O exagero está no delírio que se cria na mente bombardeada pela mídia de uma maneira descomunal. Este ano, especificamente, vários shows maravilhosos vieram ao Brasil. Claro que impera uma vontade de ir a todos os espetáculos e aí se concentra o ponto nevrálgico da angústia e do desespero que se instala na maioria, quando o desejo é aguçado ao extremo. O show de Paul McCartney caracteriza isso muito bem. Tem que ir a qualquer custo porque senão vai dizer o quê para os outros? Perdeu? Não acredito!!!!

A reflexão se aplica a outras situações do cotidiano, onde somos cobrados a todo instante, chamados a ter, a consumir, a emagrecer, a ser bem sucedidos, a estar em todos os shows, a assistir a todos os filmes, a ver todas as peças de teatro, a ler todos os livros e ainda reservar um tempo para fotografar, contar e postar tudo isso nos blogs e sites de relacionamento para que o mundo saiba que você é multimídia, está online em real-time e também em todos os lugares ao vivo, se possível.

Por isso, a notícia desta semana de que a depressão é a doença que mais atinge jovens de 18 a 25 anos nos Estados Unidos (e aqui no Brasil caminhamos para índices alarmantes também), sendo o suicídio a segunda causa de morte entre universitários desta faixa etária, não surpreende. A ansiedade de ser e ter tudo gera seres humanos cada vez mais angustiados e desesperados em obter coisas que nem sabem se desejam realmente. A angústia se transforma nessa depressão coletiva, anestesiada por medicamentos e crack, álcool e ecstasy , ou o que pintar para tornar a vida mais colorida a qualquer custo.

É claro que a música, a arte e a literatura suavizam dores e frustrações. E se você, por algum motivo, perder o show do Paul McCartney ou de qualquer outro mega, hiper astro que surja por aí, saiba que muitas novidades ainda virão e os desejos continuarão ali latentes, prontos para serem realizados a qualquer momento. Mais tarde, lá na frente, é possível que fique uma lamentação por ter deixado de fazer isso ou aquilo, embora, com certeza, haverá muitos outros motivos para recordar de coisas inesquecíveis, como o simples fato de reter (ou não) na memória, a passagem de um ex-Beatle por aqui.

Eu, particularmente, morrerei com a eterna frustração de nunca ter visto um show dos Beatles no auge da carreira deles. Não irei ao show do Paul, também, mas quem sabe no do U2 eu me anime? É a vida.

Valeu Rose!