Entrei em aula calmo, mas cedo percebi que minha profissão me faz ser inconforme sempre, e disto, sempre resta alguma indignação. Estou deveras desacorsoado por não ter, aqui em minha cidade, uma folga semanal. Até quando os "administradores da educação" vão continuar castigando os mestres? É tão fácil agradar-lhes, mas parece que ninguém gosta mais de vê-los feliz e lhes obriga a sofrer toda a sorte de humilhações, como resistir bravamente aos cocôs de pombas espalhados por todos os cantos, fugir de lâmpadas penduradas quase caindo e fazer horas burras na escola.
Quem sou eu
- Lawrence David
- Professor, Músico, Audiófilo, Cientista Político, Jornalista, Escritor de 1968.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Indignado!
Entrei em aula calmo, mas cedo percebi que minha profissão me faz ser inconforme sempre, e disto, sempre resta alguma indignação. Estou deveras desacorsoado por não ter, aqui em minha cidade, uma folga semanal. Até quando os "administradores da educação" vão continuar castigando os mestres? É tão fácil agradar-lhes, mas parece que ninguém gosta mais de vê-los feliz e lhes obriga a sofrer toda a sorte de humilhações, como resistir bravamente aos cocôs de pombas espalhados por todos os cantos, fugir de lâmpadas penduradas quase caindo e fazer horas burras na escola.
sábado, 15 de maio de 2010
Arte
Nada mais importante na educação do que a arte. A arte da beleza, da crítica, da profundidade, do emocional. A arte do comprometimento, da criatividade, do amadurecimento. Todo o resto deveria ser secundário. O poder da arte é muito grande, por isso ela é considerada secundária. É uma inversão absurda a que vivemos.
A frieza, a dureza, o sofrimento ao invés da boniteza. A mentira, a hipocrisia, a imposição ao invés da liberdade. São escolhas muito claras do padrão educacional que não deixam dúvidas quanto a seu caráter. Limitador, cabrestador, moldador. Não dá pra falar em ensinar sem arte. Quem não se artistifica se trumbica.
Nada compara uma bela produção plástica, uma pesquisa iconográfica, uma composição metafísica, a uma escritura autofágica. Comemos nossa própria cauda sofrendo com as agruras curriculares onde, nos parece, nada realmente importa. Dinheiro? É o que queremos quando nos educamos? É isso que compramos com nosso dinheiro? Mais dinheiro? Ou será que sabemos o que queremos comprar? Arte não se compra, se faz!
Todos precisam desesperadamente fazer arte com nossos alunos. Eles e nós precisamos disso. Sem criação não há solução. Só repetição não dá o mínimo tesão. É só castração. Abaixo a repressão! Chaga de enrolação, vamos ganhar um bolão! Viva a Educação!
Não é possível que em pleno século 21 continuemos reproduzindo as mesmas práticas de 40 ou 50 anos atrás. Que os alunos falem tão pouco. Que sua opinião seja tão pouco levada em consideração pra quase tudo o que se passa no ambiente escolar. Não é possível que não haja uma democracia plena em uma época em que democracia justifica até as maiores divindades e as piores atrocidades. Não é possível que uma andorinha só faça verão exercendo a função de carrasco peremptório da industriação do ensino. Não!
Mais conversa e menos falação. Mais música e menos sermão. Mais teatro e menos dissimulação. Nossa pátria é nosso coração. Chega de controlação, chega de ódio e recalque. Precisamos de renovação. O novo sempre vem, mas até quando vamos empurrá-lo para o mais além. Chega de clubinhos de conhecimento privado e pouca prática. Queremos aprender no dia-a-dia, onde nos leva nossa motivação. Vamos usar sempre essa tática. Onde estão os ciclos culturais, onde está o envolvimento coletivo, a troca, a confiança, o dividir? Não dá mais pra ser egoísta, todo mundo tem é que ser artista!
domingo, 25 de abril de 2010
Responsabilidade
Tudo o que acontece dentro de uma sala de aula, legalmente é, em primeira e última instância, responsabilidade do professor. Negligenciamos seguidamente nosso papel de responsáveis. Por descaso ou incapacidade. Por recalque ou falta de informação. Geralmente, garantimos para nós, apenas o que parece o fruto bom de nosso espaço, mas o mal também é um pouco nosso.
Aquele aluno desinteressado, é ou está assim por quê? Porque não conseguimos atrair sua atenção. Porque não gostamos do seu jeito e então não damos bola para ele. Porque ele não gosta de nós e nada fazemos para mudar isso. A princípio, somos os que devem ter mais capacidade de resolver esses problemas, somos profissionais ou não? Não dá pra fazer uma pergunta amigável a ele? Bater um papinho, ao invés de só despejar informação em cima dele? Dá, só dá. E aí podemos ser positivamente surpreendidos por algo mais interessante do que esperávamos desse “marginal” de nossa classe. Algo ele sempre tem de bom a nos oferecer, mas não nos julgamos responsáveis por isso.
Preferimos delegar à Supervisora, vice-diretora ou orientadora uma responsabilidade que é, em princípio nossa. Somos preguiçosos para isso. Arrastamos para fora de nosso espaço, por medo, insegurança ou falta de capacidade, coisas que nos pertencem e que nos poderiam fazer feliz.
Aí fica aquela pá de gente em segunda época (quá, quá, quá), ou melhor, nos estudos de recuperação. “Ah, mas não estudaram, foi por isso, eu não coloquei ninguém em recuperação, eles é que se colocaram”. Desculpe, isso é apenas parcialmente verdade. De nosso ponto de vista eles não se adaptaram à maneira como ensinamos. Temos uma tendência a culpar o aluno por tudo. Do ponto de vista deles eles talvez não venham entendendo o que tentamos ensinar-lhes. Poucos colegas ainda consideram essa assertiva como válida. E o pior é que eventualmente é a única coisa que explica o que aconteceu de fato. Melhor cumpriremos nossa função se admitirmos nossos erros.
Não dá mais para culparmos única e exclusivamente o mundo exterior, a realidade fora da escola e os alunos pelo fracasso escolar. Precisamos nos valorizar assumindo nossa cota de responsabilidade. Se os alunos evadem, precisamos atraí-los para a escola e não culpá-los, simplesmente, por evadirem. Não temos como mudar tal fato? Sim, podemos tentar, com certeza. Um professor sozinho não pode mais ser o único responsável pela reprovação do aluno. E se ele conseguiu avançar com os outros colegas, é justo o retermos só porque não evoluiu conosco? Não, claro que não. Vamos perdê-lo pro sistema privado ou para uma outra escola e essa injustiça cometida poderá comprometer até nosso emprego. Uma turma a menos por excesso de reprovação é que é antiético, e não insistirmos com um colega intransigente para que flexibilize seu ponto de vista. Mais que isso. Todo colega consciente tem o dever ético de lutar contra os abusos no uso do poder que nos é outorgado, essa sim, é uma missão ética. Essa sim é nossa verdadeira responsabilidade.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Diário da Educação
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Discurso de Formatura 1
Sendo assim não vou elogiar desmesuradamente meus alunos aqui presentes. Vou apenas dizer que amo todos eles, do fundo do meu coração, que jamais os esquecerei, que espero que não me esqueçam e que sejamos, para sempre, amigos. Fiquei muito emocionado de mais uma vez estar aqui na cerimônia de formatura , tendo a oportunidade de falar para tão significativa comunidade.
Sinto-me, porém, na obrigação de dizer alguma coisa, colocar idéias que representem, de alguma forma, o ano que passou, e que também falem um pouco de tudo isso que acontece no processo educacional brasileiro, que, afinal, é nosso “feijão com arroz”, o que nos une aqui hoje e nos uniu durante a caminhada destes jovens. Se for dizer o que penso, e me sinto obrigado a isso, talvez não agrade a muitos, mas devo ser coerente com o que venho fazendo em contribuição a esse processo.
Não gosto nem um pouco do que tenho visto em meus 10 anos de experiência como professor de ensinos médio e fundamental. Portanto, as críticas que aqui farei devem também ser encaradas como uma “espécie de mensagem de esperança” pois poderiam ser, para alguém mais atento, um ponto de partida para uma reflexão aprofundada que, como conseqüência, gerasse uma ação efetiva orientada para a mudança que é, a meu ver, absolutamente necessária.
Primeiro, não devemos colocar a culpa de tudo o que acontece de errado no mundo em nossos jovens. Os nossos jovens deveriam ser nosso norte, nossa direção e expectativa, deveríamos aprender com eles, tentar compreender com seus olhos o mundo que será em breve, só deles, aprender a ensiná-los, aplicarmos ao processo educacional sua pureza, esperança, energia, dando-lhes nossa experiência renovada por sua juventude. Mas não é isso que temos feito. Cansados, combalidos, humilhados, vítimas que somos, damo-lhes, muitas vezes, o pior de nós, nosso ranço, nossos recalques, nosso mundos velhos, prontos e petrificados, e, em troca, recebemos deles o pior. Os atacamos com nosso poder opressivo e os atiramos a paredes, tentando enfiar goela abaixo verdades que eles não precisam e não lhes servem. Esquecemos a emoção que seria receber sua aura límpida, seus hormônios abençoados de novidade e desejo de transformação, e nos contentamos com cruzes em modelos surrados e mortos de pensamento, ao invés de termos palavras com vida, emoção e desejo.
Segundo, esquecemos a arte. Não apenas a arte como forma de conhecimento, mas a arte que é viver, a qual deveria ser o objetivo de nossa escola. Deveríamos produzir pensadores, músicos, arquitetos de renome internacional, teatrólogos, filósofos e intelectuais capazes de transformar o mundo, que, nem preciso dizer, está se destruindo. Mas o que fazemos, apenas, é prepará-los para cair nesse mundo, reproduzi-lo, ter dinheiro, viver como os outros, todos iguais, e morrer esquecidos, sem esquecer, é claro, de coagi-los a espalhar entre as gerações a mesma maldição de mediocridade e indistinção, de falta de originalidade, de robô repetidor, de não-criador, de não humano.
Não, senhores pais, não é para isto que estamos aqui, definitivamente. Para isto, eu não estou aqui e posso, devo convencê-los do mesmo. Mas para que possamos ter jovens criativos que possam transformar o mundo, precisamos de vocês, jovens pais. Vocês precisam se educar para educá-los, afinal a principal instância de formação, sem sombra de dúvida é a família. Não deleguem a terceiros a formação deles. Agora, também não lhes tolham a liberdade de fazerem suas próprias opções.
Também sou pai, estou cansado de trabalhar tanto, às vezes não tenho nem ânimo pra conversar com minha filha, mas converso, nem que seja no limite de minha energia. Quando olho para ela não vejo um ser diferente, demandador e desinteressante, nem tampouco projeto nela algo que eu não fui e queria ter sido, isto é um erro. Eu vejo ali uma luz, algo diferente, novo e surpreendente que nunca faz o que eu espero exatamente, que pode ser o espelho do mundo de amanhã. Estamos diante de deliciosos “MUTANTES”, cheios de novos poderes que sequer compreendemos, X-Men que atravessam paredes, voam e até lêem pensamentos. Por isso não vamos lhes presentear apenas com coisinhas fúteis e da moda, não vamos encher seus ouvidos e espíritos com esse lixo que toca no rádio, que é escrito na mídia e é passado no cinema. Dêem a seus pupilos “Conteúdo”, “Substrato” de verdade. Não entupam eles apenas com informações inúteis, com as quais nós mesmos fomos entupidos um dia. Dêem-lhes ARTE capaz de projetar em suas mentes coisas novas, sensações renovadas de realidade futura, fresca, pura, indestrutível e não-consumível.
Em Terceiro lugar, e, por fim, para educar, lutemos. Lutemos juntos, vamos sair do nosso cantinho, da nossa materiazinha, da nossa funçãozinha determinada pela sociedade industrial despersonalizada compartimentada, bancária porque tudo é vendido, e vamos construir, dentro da educação, uma coisa nova, mais bonita e que cause menos sofrimento a todos. Aprender, pelo amor de deus, não é sofrer, muito antes pelo contrário, aprender é, tem que ser, brincar. Brincar de ser inteligente, brincar de criar coisas novas, brincar de reler as velhas, brincar de sermos amigos e fazer as coisas juntos, brincar de aceitar as diferenças, brincar de não se achar superior, brincar de gostar de ensinar, brincar de gostar de aprender com o outro, brincar de conversar.
E jamais se esqueçam todos que a fase em que aprendemos mais, com mais facilidade em nossas vidas foi aquela em que éramos simplesmente crianças.
Não Dá, Não Aguento Mais!
Para onde vamos, para onde vou, que barco é esse, qual nosso “conteúdo”? Queremos ir à Universidade, esse é o fim? Será que queremos mesmo? É lá que é bom? O que é lá se aqui não nos informam e não temos a menor idéia? Eu vou sair daqui, não sei quando, e vou ir para um lugar, para o qual eles dizem que devo ir, só que eu, o mais interessado nem bem sei como é! É um jogo de cabra-cega, só que aqui todos são cegos.
Cheguei aqui sem saber e vou sair sabendo menos, pois ninguém me perguntou o que eu queria saber, como eu queria aprender. Nem sabiam como eu aprendia ou o que eu sabia, porque todo mundo sabe alguma coisa. Eu sei. Eu sei que eu sei de alguma coisa. Eu vi e vejo isto. Mas ninguém quis saber de mim. Só despejam seu conteúdo em cima de mim. Me soterram dia a dia com coisas que, na minha vida, não fazem o menor sentido. Mas ninguém, ou quase ninguém, pra não ser injusto, perguntou sobre a minha vida. Minha vida, que eu sempre dividi com todos, só não interessa aqui. Aqui sou só um número, pequeno, grande, sem personalidade, sem eu mesmo. Sou um numerozinho e é só.
Eu até tento, tento mesmo. Não vou dizer que não haja gentes e coisas interessantes aqui. Claro que há. Tem muitos colegas bons e com eles eu me divirto. Longas discussões acaloradas, cheias de conteúdo, sentimentos e emoções. Há algum amor, amizade, compaixão e companheirismo. Bondade e dedicação de minha parte a eles não faltou. Em nenhum momento os abandonei. Se os deixei sós foi porque havia abandonado a mim mesmo com isso tudo acontecendo. Deles também, de alguns, tive muito. Para estes tudo. Para o todo, nada. O resto não merece.
Será que isso um dia vai mudar? Acho que eu não vou ver, não vou querer ver não. Pra quê? De mim eu sei, mas eles sabem? Não acredito. Só sabem deles. Querem que eu goste do que eles gostam, que entenda como eles entendem, afinal, dizem, sabem o que é certo, a verdade, o que nos serve. Nunca quiseram saber o que eu sei, porque acham que não sei nada. Querem me convencer que eu não sei nada, que só serve o que eles sabem e que devo aprender o que eles aprendem do jeito que acham que devo aprender.
Mas eu tenho uma coisa pra lhes ensinar que eles nem sabem que vão aprender nem que não queiram. O Futuro é meu. E mesmo que eles não queiram, nem que demore gerações não querendo, uma coisa é certa: isto tudo vai acabar. Porque não há vida que não se espelhe no verdadeiro conhecimento, aquele que mantém as pessoas respirando, comendo, dormindo. E este é mais forte do que a própria vida. O verdadeiro conhecimento não se ensina, cada homem toma, rouba o que merece. E se eles querem morrer sem saber, não sou eu quem vai lhes ensinar.